
Arte rupestre esquemática peninsular
A arte responde ao pensamento simbólico das pessoas e comunidades humanas de todas as épocas. É, ao mesmo tempo, um modo de conhecimento e de comunicação.
A arte rupestre esquemática da Península Ibérica representa uma das mais vastas e duradouras expressões do pensamento simbólico pré-histórico europeu, com uma cronologia que se estende do 8.º ao início do 2.º milénio a.C. — do Mesolítico ao início da Idade do Bronze.
Para as comunidades atuais que habitam os mesmos territórios, esta arte pré-histórica é motivo de orgulho por testemunhar um passado rico e excecional que atravessou milhares de anos.
Ao contrário da arte paleolítica, dominada por representações naturalistas de animais, a arte esquemática pós-paleolítica caracteriza-se por uma abstração crescente das formas:
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figuras humanas reduzidas aos traços principais;
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animais estilizados que se tornam zoomorfos abstratos;
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símbolos geométricos sem paralelo no mundo real, mas profundamente enraizados no universo ideológico.
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A transmissão destas práticas gráficas, das suas técnicas e convenções, e dos significados que em si transportavam, implicou aprendizagens continuadas e encontros regulares para as repetir e cimentar, o que revela a centralidade da arte nas negociações sociais e ideológicas dos grupos humanos sem escrita em cada época.
Qual a relação entre arte e pensamento simbólico?
A arte exprime o pensamento simbólico das pessoas e comunidades humanas e constitui também um modo de compreender e comunicar o mundo. As «artes representativas ou gráficas» são uma faceta das técnicas e concepções mentais cuja transmissão — entre grupos ou entre gerações (herança cultural) — exige:
1. Aprendizagem e repetição de gestos na elaboração das obras, podendo ser feitas em contextos rotineiros;
2. Observação e participação em realizações sociais, como encontros ou reuniões de diversa natureza, onde essas obras eram exibidas ou manipuladas.
Estes encontros programados, provavelmente de carácter calendarizado, seriam momentos-chave na transmissão das práticas técnicas, dos modos formalizados de elaboração (que denominamos grosseiramente de “estilo”) e das interpretações que suscitam — ou seja, do seu significado dentro de cada comunidade.

Fenómenos de transformação gráfica, ou até de «apagamento e destruição intencionais» (iconoclastia), mostram que, no passado como no presente, a arte participa dos conflitos e negociações sociais e ideológicas de cada época.
Por que razão é difícil interpretar a arte pré-histórica?
A ausência de documentação escrita na arte da Pré-História torna difícil aceder à iconologia — isto é, ao significado (s) de cada obra ou símbolo — sendo mais frequente recorrer à descrição formal e técnica (iconografia).
Imaginemo-nos a interpretar o contexto e intenção de uma obra do futurista Giacomo Balla, autor que enaltece a tecnologia e velocidade do mundo contemporâneo (por ex. no quadro “Velocidade da motocicleta” (1913)). Ou o “Auto-retrato” (1948, desenho) de Almada Negreiros, onde as palavras escritas, e o resto, se centram no olhar do indivíduo (artista). Compreendemos estas representações porque os autores no las explicaram, e também porque se inserem no contexto da comunicação das nossas artes contemporâneas.
Na arte pré-histórica contextos paisagísticos (incluindo os suportes rochosos) e a relação com outros vestígios arqueológicos permitem que, embora se não alcance o significado intrínseco das obras de arte, através de uma abordagem holística, acede-se a informações valiosas sobre a vida social, os modos de comunicação e as estratégias de interação das comunidades pré-históricas.

Por outro lado, para as comunidades atuais que habitam estes mesmos lugares, a arte pré-histórica é — e deve ser — motivo de orgulho, por revelar um passado rico e excecional que atravessou milénios, ainda que parte dela se tenha perdido. Esta arte convida à empatia com o “outro” — o Homo sapiens que, sendo biologicamente idêntico a nós, desenvolveu formas gráficas, escultóricas e simbólicas muito distintas das do mundo contemporâneo.
Sobre a arte esquemática peninsular
A pintura rupestre da Serra de Passos–Santa Comba–Garraia insere-se no grupo estilístico denominado de Arte Esquemática da Pré-história Recente (ou pós-paleolítica) da Península Ibérica. Este conjunto inclui gravuras, pinturas, baixos e altos-relevos, placas, proto-esculturas e diversos «artefactos».
A sua cronologia estende-se do 8.º ao início do 2.º milénio a.C., abrangendo o Mesolítico, Neolítico, Calcolítico e o início da Idade do Bronze. Com distribuição geográfica por toda a Península Ibérica, bem como pelo Mundo Mediterrânico e Atlântico, apresenta grande variabilidade formal, refletindo a expressão gráfica e simbólica dos distintos grupos humanos que a produziram.
Porém, a arqueologia demonstra que estes grupos nunca viveram isolados: partilharam ideias, artefactos - cerâmicas, tecidos, adornos, gado e modos gráficos que podem até ser “transportados” na imagética dos produtos intercambiados.
Desta partilha e sua conjugação com fundos culturais próprios, emergem formas de expressão gráfica particulares que naturalmente se transformam ao longo do tempo e que nós apelidamos de “arte”. Assim se compreende que a Serra de Passos–Santa Comba–Garraia
tenha sido, ao longo de milénios, um ponto de convergência alargado — um locus — de encontro e partilha cultural, onde diferentes comunidades deixaram as marcas simbólicas das suas relações regionais, mas também de influências dos intercâmbios com o sul de Portugal e com o sul e sudeste de Espanha.
Porque se denomina “arte esquemática” ou, mais precisamente, “pintura esquemática”?
Embora o esquematismo e o abstracionismo já existam na arte paleolítica, são os animais de configuração naturalista que têm um peso visual maior.
A arte paleolítica é sobretudo animalista, e as representações mais esquemáticas ou abstratas, menos atrativas e mais difíceis de estudar, têm recebido menor atenção e divulgação.
No pós-paleolítico, verifica-se um fenómeno decorrente da estilística das representações que obriga a que se atenda a todos os tipos de motivos:

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os animais (cabras, cervídeos, peixes, serpentes) são representados de forma cada vez mais esquemática, atingindo por vezes tal grau de abstração que só podem ser classificados como zoomorfos;
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as figuras humanas, mais frequentes do que em épocas anteriores, são esquemáticas e reduzidas aos traços essenciais, extremando nos “cruciformes”;
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surgem novas figuras esquemáticas, sem paralelo no mundo real, mas relacionadas com o conceções ideológicas ou míticas — figuras retangulares, figuras solares, sequências de barras, linhas de pontos e marcações de dedos.
Entre as representações mais excecionais destacam-se as figuras oculadas, particularmente numerosas na Montanha Sagrada, cuja característica principal é fixarem, de modo standardizado, os olhos, as sobrancelhas e a tatuagem facial.