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Pintura esquemática da Serra de Passos–Santa Comba–Garraia

A Serra de Passos–Santa Comba–Garraia é um dos mais extraordinários conjuntos de arte rupestre esquemática da Península Ibérica, tanto pela quantidade e concentração de figuras, como pela diversidade inigualável de figuras oculadas.

 

Revela um sistema complexo de símbolos, traduzidos em figuras semi-esquemáticas, esquemáticas e abstratas, pintadas em tons de ocre (vermelhos, alaranjados e amarelos) e, mesmo negro-azul. Estes conjuntos articulam-se mutuamente na paisagem, configurando uma autêntica “Land Art” pré-histórica.

 

Esta arte não representa paisagens nem faz narrativas lineares. Funciona antes como uma linguagem conceptual, em que cada painel e cada figura atuam simultaneamente como unidade individual e como parte integrada de uma rede simbólica que transforma a própria montanha num monumento vivo.

 

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 Teto do abrigo Casinhas de Nossa Senhora © Jorge Pinto

Do Neolítico Antigo ao Calcolítico (do final do 6.º ao final do 3.º milénio a.C.), sucessivas gerações inscreveram aqui as suas concepções do mundo, pintando nas escarpas sobranceiras às linhas de água e nos relevos culminantes de vistas amplas e circulares (360°). Criaram, assim, percursos simbólicos que ligam entre si os diversos espaços vividos.

 

Compreender esta arte é aceder aos modos de pensamento, comunicação e organização social das comunidades que fizeram desta montanha sagrada um espaço identitário de longo alcance temporal e intergeracional. Conhecer esta herança é alargar a nossa perceção ao “outro” do nosso passado — seres humanos como nós, com formas de expressão diferentes, mas igualmente profundas.

 

 

  1. Cronologia extensa — Inicia-se no Neolítico Antigo, abrangendo do final do 6.º ao final do 3.º milénio a.C., o que permite observar transformações gráficas, estilísticas e compositivas ao longo de um vasto arco temporal.

  2. Concentração e tipologia variada das figuras oculadas — A Serra apresenta a maior concentração conhecida deste tipo de figuras em toda a Península Ibérica, com uma singular diversidade na sua forma e configuração.

  3. Concentração excecional de pinturas em relação topográfica e simbólica — A distribuição topográfica dos painéis, que ocorrem na Montanha num número e concentração extraordinários, bem como a sua estreita relação espacial entre si e em articulação com os vales e as escarpas, revelam uma real “Land Art” pré-histórica que absorve toda a Montanha num Monumento unitário e orgânico. Mais do que a sítios isolados, temos aqui a possibilidade de abordar cientificamente toda uma paisagem, bem delimitada e diferenciada do território.

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Em que é que a pintura esquemática da Serra é excecional?

​A pintura esquemática da Serra é excecional por três razões principais:

Trepando pela escarpa vertical de Casinhas de Nossa Senhora

© Rafael Morais

Como é a iconografia?

Na Serra observa-se a iconografia típica da pintura esquemática peninsular, mas com rara presença de animais (talvez capríneos ou cervídeos) e de figuras humanas (antropomorfos).

 

Porém, as figuras oculadas são entidades associadas com Humanos de algum tipo (deuses/deusas; seres sobrenaturais, etc.) pois a característica principal é fixarem, de modo padronizado, os olhos, as sobrancelhas e a tatuagem facial.

 

Estas figuras remetem para a figura humana sobrenatural (mítica), muitas vezes hibridizada com outros seres, reais ou “imaginados”.

 

No Regato das Bouças 11 e 12, a sugestão de aves é muito marcante: os “braços” parecem surgir penas, o pés evocam patas e a figura muitas vezes reduzida à representação da sobrancelha, em forma de V aberto, pode sugerir também uma ave em voo, aqui com as devidas ressalvas por se tratar de uma analogia direta aos nossos modos de representação atuais. Há também formas oculadas diversas e complexas que combinam máscaras de diferentes configurações: da grande "face" saem mãos e pés a par de corpo minúsculo, ou figuras estilizadas que sugerem diversos tipos de estandartes.

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A montanha como conjunto pictórico e simbólico articulado — uma Land Art pré-histórica

Mais do que uma soma de sítios e motivos, a Montanha Sagrada deve ser entendida como um conjunto articulado, onde se revela uma verdadeira Land Art. Isto significa que os painéis não representam cenas ou paisagens, mas antes que em cada local (abrigo ou painel) se pintaram motivos/símbolos que devem ser entendidos como conjuntos individuais em cada local, mas sempre relacionáveis entre si em toda a Montanha. Estes motivos estabelecem relações entre os diversos espaços vividos. Através deles, a Montanha configura-se como uma totalidade simbólica, em que cada parte conserva um significado próprio, sempre indissociável do significado global.

É provável que, em cada época pré-histórica, existissem percursos simbólicos ou programados, percorrendo diferentes espaços sagrados.

Entre os conjuntos de abrigos e painéis, sobressai claramente a sequência de abrigos com pintura em escarpas sobranceiras e relativamente próximas a linhas de água, destacando-se:

 

  • Regato das Bouças (parte oriental da Montanha)

 

  • Ribeira d’Áila e o Abrigo da Abelheira (parte central da Montanha);

 

  • Ribeira da Cabreira (parte norte da Montanha).

 

Nos relevos culminantes, que dominam os topos donde se obtêm, no conjunto, vistas de 360 graus, sobressaem:

 

  • a Escarpa da Pala (parte oriental da Montanha);

 

  • o Abrigo 1 da Cabreira (parte norte);

 

  • a Escarpa de Santa Bárbara (parte norte, sobranceira à Veiga de Lila);

 

  • a Escarpa da Ribeira de Pousada (a sul, sobranceira à aldeia de Franco);

 

  • e a Escarpa ou Abrigo da Janela do Padre (no topo da Garraia).

 

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Este último domina toda a parte sul, circundante da Montanha Sagrada, com destaque para Palheiros, Varges, Monfebres e Noura. É particularmente significativo o domínio visual da Escarpa da Pala e do seu Cruzeiro sobre  todo o território, só comparável à Capela e Escarpa de Santa Comba dos Vales onde, até ao momento, não foram identificados painéis pintados. A organização dos motivos, a sua tipologia e frequência, e mesmo as características de algumas "composições, mostram-nos que a Montanha Sagrada é um espaço humanizado sobretudo pelo recurso à pintura esquemática.

 

Esta “Land Art” funcionou como um modo de apreender, interpretar e usar, individual e coletivamente, este monte-ilha e o território em redor, entre o final do 6.º e o final do 3.º milénio a.C.

A Montanha como epicentro aberto a relações regionais

 

Embora as maiores concentrações de pinturas se localizem na parte oriental — no Regato das Bouças ou na Escarpa da Pala, cujo epicentro é o Buraco da Pala —, outros locais da montanha mantêm igual importância.

 

Esta concentração revela que a Montanha ganhou um valor comunitário e identitário de longo alcance temporal, transmitido entre gerações. As figuras oculadas aí concentradas apelam a interpretações que devem ter a ver com o caracter mais exterior, mais negociado, da Montanha - por serem símbolos grupais e identitários que encontram paralelos noutras regiões, não só na forma pintada mas também em decorações cerâmicas (de que temos um exemplo no Buraco da Pala), em placas pétreas, e em estatuetas, estelas ou mesmo proto esculturas.

 

Podemos por exemplo referir o Cabeço da Mina (Vale da Vilariça), onde se concentram estelas antropomórficas com uma simbologia próxima da observada no Regato das Bouças. Embora estas concentrações sejam comparáveis na sua diversidade e complementaridade formal, originam “paisagens” de Land Art profundamente distintas entre si.

 

 

O Cabeço da Mina constitui, do ponto de vista formal, uma colina de baixa altitude, onde se concentraram estelas antropomórficas — algumas com representações oculadas — cuja distribuição e organização permanecem ainda desconhecidas. Algumas dessas estelas espalhavam-se também pelo amplo vale. (Centro Interpretativo do Cabeço da Mina, Vila Flor).

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Ficha Técnica​

Textos:

Maria de Jesus Sanches

Joana Teixeira

António Crespi

Concepção e execução:

Sara Cura

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