
Abrigo Buraco da Pala e sua Escarpa
O abrigo rochoso Buraco da Pala e a sua escarpa quartzítica localizam-se no ponto mais alto do extremo leste da Montanha, encimado por um Cruzeiro.
Representa o centro da atividade humana pré-histórica, em toda a sua dimensão económica, política e simbólica, relativamente à Serra de Passos–Santa Comba–Garraia e ao território que a rodeia.
Ainda que não se possa provar, é possível estabelecer um paralelismo funcional entre este abrigo e a escarpa que o abriga e o papel que, em tempos mais recentes, desempenhou a Capela de Santa Comba.
No extremo oeste da Serra, a festa e romaria de Santa Comba dos Vales, realizada a 9 de agosto, congregava as pessoas de todas as aldeias e vilas em redor numa celebração religiosa com refeições partilhadas e gestão dos baldios da Serra.

Solstício de inverno-Buraco da Pala. © Diogo Nóbrega National Geographic Portugal
Como o definir? Abrigo ou gruta?
O Buraco da Pala é um espaço rochoso amplo que se adentra na escarpa quartzítica homónima e com a abertura virada a nascente. Durante o solstício de inverno, o nascer do sol ilumina diretamente toda a sala principal, definindo um abrigo rochoso.

Deste modo, o interior compreende uma ampla sala naturalmente iluminada, com cerca de 80 m², prolongando-se para o interior da escarpa através de uma galeria com 27 metros de comprimento, muito estreita e relativamente baixa na extremidade, à semelhança dos espaços mais constrangidos das grutas.
As escavações arqueológicas, dirigidas por Maria de Jesus Sanches entre 1987 e 1990, revelaram vestígios de ocupação humana em ambos os espaços: materiais arqueológicos nas camadas estratigráficas; e manifestações gráficas nas paredes do abrigo, com quatro painéis de pintura esquemática - dois na sala principal e dois no fundo da galeria.
Na plataforma exterior, contígua à entrada, surgiram evidências adicionais de ocupação, datáveis do Calcolítico. Além disso, ao longo das escarpas adjacentes, existem outros painéis pintados, designados como conjunto de abrigos da “Escarpa da Pala”
O Buraco da Pala como testemunho das sociedades agro-pastoris pré-históricas do Noroeste Peninsular
Todas as camadas arqueológicas do abrigo foram datadas por radiocarbono, revelando uma ocupação humana contínua desde o Neolítico Antigo (finais do 6.º – inícios do 5.º milénio a.C.) até ao final do Calcolítico (meados do 3.º milénio a.C.).Quando estes resultados foram divulgados internacionalmente, em 1996, constituíram uma grande porque até então não se conheciam vestígios tão antigos de cultivo de cereais e leguminosas no Noroeste da Península Ibérica, datando de cerca de sete mil anos antes do presente.
O abrigo foi usado de forma sazonal durante o Neolítico Antigo e Médio (c. 5200–4800 a.C. até ao final do 4.º milénio a.C.), mas assumiu uma dimensão social considerável a partir de cerca de 2800 a.C. Mesmo assim, as ocupações continuaram calendarizadas e não permanentes.
Durante o Neolítico Final e o Calcolítico (até c. 2500 a.C.), o Buraco da Pala converteu-se num local socialmente muito especial, onde se desenvolveram práticas comunitárias programadas, provavelmente de carácter ritual, associadas ao consumo de produtos agrícolas— trigo, cevada, fava, ervilha, papoila, linho, lentilha, e de recoleção como a bolota e pinhão.Muitos destes produtos eram também cultivados e consumidos nos povoados próximos da mesma época, e é provável que as comunidades vizinhas se reunissem periodicamente na Montanha, em momentos importantes do seu calendário ritual, para conviver, partilhar saberes e negociações entre grupos que teriam continuamente de ocorrer.

O trigo, a cevada, a fava e a bolota não eram apenas consumidos, muitas vezes de modo sigiloso e socialmente restritivo, mas também depositados no abrigo na área mais resguardada destinada ao "armazenamento". Estes produtos integravam práticas sociais e simbólicas que poderão ter incluído a destruição pelo fogo (carbonização). Quer se tratasse de acidentes ou rituais intencionais, os restos carbonizados foram mantidos intencionalmente como “memórias” do evento (talvez festas).
Arqueologicamente, estes vestígios encontram-se numa sequência vertical de três unidades estratigráficas distintas.No Buraco da Pala não se conservaram ossos de animais, o que impede determinar se se os animais não eram consumidos neste local, se simplesmente não se conservaram, ou se a sua ausência resulta da não preservação dos materiais orgânicos.
Sabe-se, contudo, que em sítios contemporâneos e próximos como o Crasto de Palheiros (3.º milénio a.C.) foram recolhidos ossos de bovídeos, cabras, ovelhas e porcos/javalis.Destaca-se ainda a prática da metalurgia do cobre, provavelmente em contexto restrito e sigiloso, bem como o depósito de contas de ouro e de variscite, materiais raros e de grande valor simbólico, que reforçam a dimensão ritual e socialmente diferenciada do Buraco da Pala.