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A Montanha Sagrada localiza-se no coração de Trás-os-Montes, no nordeste de Portugal. É um monte-ilha (inselbergue quartzítico) que se eleva sobre as terras baixas envolventes, oferecendo um panorama de 360° que alcança longas distâncias, especialmente a partir de três pontos notáveis panorâmicos: o Pico de Santa Comba, o Cruzeiro da Escarpa da Pala e o Monte do Rei de Orelhão.

Administrativamente, a Montanha Sagrada estende-se por dois distritos: Bragança (concelho de Mirandela) e Vila Real (concelhos de Valpaços e Murça).

A centralidade regional da Montanha Sagrada já era reconhecida nos documentos do século XVIII. Neles se destacam as abundantes fontes e pastagens, capazes de alimentar cerca de oito mil cabeças de gado, e a aspereza dos seus picos rochosos, como o do Rei de Orelhão.

Foto à esquerda:  © Francisco Mendonça​

A memória popular associa a Serra às “capelas” e à lenda de duas crianças ou adolescentes – a formosa Comba e o seu irmão Leonardo –, mensageiros da fé à Virgem e símbolos da resistência cristã ao “inimigo mouro”, o Rei de Orelhão.


A romaria à capela de Santa Comba dos Vales e à Fonte de São Leonardo, no ponto mais alto da Montanha, sobre Vales (Valpaços), continua a celebrar-se a 9 de agosto, perpetuando a sacralidade da Serra dentro da fé cristã.

Documentos do século XVIII descrevem assim a sua imponência:

“Conquista com a serra do Marão e com a serra de Siabra [Sanábria] e delle se vê a serra da Estrela e conquista também com a serra de Bornes e vai conquistando athé a do Marão.” (1)
“Ao O. da villa [Lamas de Orelhão] está a serra de Santa Comba, que tem 18 kilometros de comprido e 12 de largo. E' fértil em lenhas, e n'ella pascem mais de 8:000 cabeças de gado.” (LEAL, 1873)

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Esta posição dominante e as suas riquezas naturais — pastos, fontes e ribeiros — sustentaram uma economia agro-pastoril próspera e explicam o papel primordial que a Montanha teve no povoamento regional ao longo de sete milénios, desde o Neolítico Antigo até épocas recentes.

A agressividade dos picos e escarpas, desnudados de vegetação, também foi notada em documentos antigos. Um deles descreve o cabeço do Rei de Orelhão, tido como praça de armas:

“...situada em terra muito áspera de montes e fragas que dizem hera do mouro, ainda tem bocados de muralha, e ao pé da mesma prassa se acha huma fonte debaixo de huma fraga que dizem hera dos mouros.” (1)

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A lenda de Santa Comba expressa a carga religiosa e simbólica desta serra. Segundo P. Leal (1873), pode ter origem em acontecimentos reais que marcaram profundamente as mulheres da região, como o massacre da abadessa Comba e outras freiras em Lamego, no século X, pelo temido Almansor.

“Ella [Comba] e S. Leonardo guardavam seus rebanhos na serra, quando Orelhão, captivado pela sua formosura, e não se deixando ella seduzir, tentou empregar a força. Invocou ella a Virgem, que a escondeu, abrindo-se uma parede para esse fim, e cego então, o mouro, de furor, vingou-se em Leonardo, matando-o.” (LEAL, 1873:618)

Assim, as paredes e escarpas rochosas mantêm-se como locus inacessível de religiosidade e mistério onde, segundo a tradição, uma delas alberga a Santa Comba.


Esta memória oral não ultrapassa a Idade Média, época das conquistas e da presença árabe no norte do atual território português — sobre o qual há pouca documentação.


Já a do estudo arqueológico revela uma ocupação contínua da Serra desde o Neolítico Antigo até à Idade do Ferro (entre o 6.º milénio a.C. e o século I d.C.), através dos vestígios preservados em vários dos seus sítios.

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Ficha Técnica​

Textos:

Maria de Jesus Sanches

Joana Teixeira

António Crespi

Concepção e execução:

Sara Cura

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