
A que se deve a diversidade florística da Serra de Passos—Santa Comba—Garraia?
Quem observa a serra de Passos—Santa Comba—Garraia repara logo numa característica geomorfológica invulgar: a sua orientação perpendicular em relação às formações montanhosas que a rodeiam, uma singularidade no relevo duriense.
É precisamente esta posição geográfica e perpendicularidade que explica a sua extraordinária diversidade florística, pois a Serra funcionou como uma autêntica barreira no movimento das espécies vegetais entre sul e norte, e o norte e o sul, ao longo de milhões de anos.
Durante o processo de "mediterranização" e das grandes mudanças climáticas dos períodos glaciares e pós-glaciares, esta Serra comportou-se como área de refúgio, abrigando uma diversidade de plantas que noutras zonas desapareceram.
Apesar da política florestal do Estado Novo ter deixado marcas negativas bem visíveis na paisagem — pinhais, presentemente infestados de processionária, ciclos repetidos de incêndios, etc. —, as escarpas e afloramentos rochosos continuam a albergar nichos com uma notável variedade de plantas endémicas.

A Serra de Passos-Santa Comba-Garraia na estrutura do relevo e dos climas da Península Ibérica

Quando observamos atentamente a disposição das principais formações montanhosas no oeste ibérico, descobrimos algo verdadeiramente curioso.
A Península Ibérica possui uma cordilheira alpina ao longo de todo o extremo norte, a Cordilheira Cantábrica. No sul, surge um fenómeno geomorfológico semelhante, mas fragmentado pelos vales dos rios Guadiana e Guadalquivir. Isto resulta numa configuração curiosa: o sul ibérico tem um extremo montanhoso do lado oriental, com as formações Béticas e sub-Béticas, enquanto uma extensa cordilheira une o planalto Bético à costa Atlântica, desde o norte e noroeste andaluz até ao Barrocal algarvio.
Entre estes dois acidentes geofísicos — a Cordilheira Cantábrica e o eixo montanhoso andaluz-algarvio — a Península cria um corredor também montanhoso que se estende desde as serras bragantinas e minhotas, passa pela formação Alvão-Estrela e desce pelas suaves montanhas que, desde o Alto Alentejo, se deslocam pelo oriente alentejano até ao Barrocal.
Este corredor ocidental define um eixo montanhoso longitudinal central que, no centro e norte, se desvia para o lado oriental na metade sul do país. Várias transversalidades cortam esta continuidade: as serras bragantino-zamoranas, as beirãs-durienses e a estrelense-malcatana.
No Alto Douro transmontano levantam-se pequenos complexos montanhosos entre os vales dos rios Pinhão, Tua e Sabor, onde se encontra a serra de Passos—Santa Comba—Garraia. Com um entramado tão diverso e complexo, não surpreende que a Península Ibérica funcione, climaticamente, como um verdadeiro continente, o que explica a enorme diversidade florística que alberga para uma localização temperada como a que ocupa neste momento geotectónico.
Consequências florísticas da "mediterranização" e doutras mudanças climáticas
Para compreender melhor este fenómeno, basta recuar cerca de doze milhões de anos, ao início da "mediterranização" e à crise ambiental do Pleistocénico. A formação da atual bacia mediterrânica criou um sub-bioma próprio, com regimes climáticos claramente diferentes dos circundantes.
A flora reagiu de imediato, desenvolvendo uma diversidade específica própria entre géneros já existentes ou criando géneros novos. Com as crises glaciares e interglaciares, que começaram no último terço do Mioceno e atingiram o seu auge ao longo do Pleistocénico, esta flora mediterrânica em desenvolvimento recebeu novos fluxos de material genético, vindos especialmente da metade norte de África.

As migrações florísticas são, na verdade, muito semelhantes às migrações que os homínidos fizeram na sua colonização da Eurásia. Os fenómenos glaciares-interglaciares empurravam a flora de sul para norte nos períodos interglaciares e do norte para a bacia Mediterrânica durante as glaciações.
Todas as formações montanhosas que rodeiam esta bacia acabaram por proteger esplendidamente toda a região, transformando-a num verdadeiro refúgio florístico.É aqui que entram em jogo as serras internas perpendiculares às grandes muralhas do norte da bacia Mediterrânica, como a de Passos—Santa Comba—Garraia. Por estarem perpendiculares ao sentido da migração, não só provocavam mudanças na diversidade ambiental, como acabavam por funcionar como formidáveis centros naturais de retenção de material genético — tanto da flora que migrava para norte nas épocas interglaciares, como da que descia para sul com o arrefecimento glaciar.
É inegável que a política florestal do regime salazarista trouxe uma homogeneização da paisagem portuguesa sem precedentes. A serra de Passos—Santa Comba—Garraia não foi poupada e hoje a enorme densidade de pinhais, alvo de frequentes incêndios florestais, testemunha uma paisagem com a qual a população circundante já não se identifica.
Contudo, se explorarmos com cuidado os importantes afloramentos rochosos das cotas mais elevadas, encontraremos todo um leque de endemismos dos mais diversos grupos sistemáticos: desde as silvas (Rubus henriquesii) até formações herbáceas graminóides (como a Koeleria hispanica), narcissos (Narcissus rupicola) ou cravos (Dianthus lusitanus). Tudo isto aponta para um tesouro biológico que merece a nossa atenção e que nos chama a preservar este património único.