
Os verdadeiros monumentos que trespassaram o tempo são as escarpas.
São, simultaneamente, as menos afetadas por destruição humana.
Por esse motivo — no presente como no passado — elas emergem, agressivas, em forma de dobras alinhadas de quartzito colorido, quase desnudadas de vegetação, mas albergando abrigos com extravagantes formas e tamanhos.
No inverno e na primavera, o silêncio é apenas interrompido pelo gotejar da água; no verão e no outono, as escarpas envolvem-nos na sua frescura e quietude, enquanto nos maravilhamos com a paisagem em redor da Serra.
Percorrendo a Montanha é, assim, um convite à experiência do lugar onde espaço, natureza e memória convergem na sensibilidade de cada um.
Monumentalização da Montanha
É hoje lugar-comum afirmar que a arte rupestre — pintura e/ou gravura — constitui um documento arqueológico de natureza específica.
Os abrigos e painéis da Serra revelam-se o centro de uma intensa vida social, tornando evidente que determinados espaços e ecossistemas, mesmo sem grandes construções monumentais, estruturaram o quotidiano e os ciclos sazonais das comunidades pré-históricas.
O aumento continuado de painéis nestes locais, como ocorre nesta Montanha Sagrada, transforma a própria Serra em monumento: uma memória coletiva constantemente atualizada, onde cada geração acrescentava novos registos visuais e reinterpretava os anteriores.


Se no Neolítico Antigo já existiam alguns painéis (como os do Regato das Bouças e da Ribeira d’Aila), é durante o 4.º e o 3.º milénio a.C. que se observa uma estreita correspondência imagética e tipológica entre a arte do interior dos dólmenes e a que surge nos painéis dispersos por toda a Serra, incluindo áreas adjacentes, como a Ribeira de Lila/Santa Bárbara.
Com efeito, o pequeno vale do Regato das Bouças, em conjunto com a Escarpa e abrigo do Buraco da Pala, formam um núcleo central no contexto da Serra. A elevada concentração de painéis pintados e as evidências arqueológicas em ambos os locais melhor conservadas no Buraco da Pala, revelam que esta área funcionou tanto como espaço privilegiado de encontro ritual, como de ocupação sazonal por parte das comunidades humanas pré-históricas.
Estas áreas dominam visualmente a bacia de Mirandela e os territórios a leste.Para norte, o eixo da Ribeira da Cabreira, em direção à Veiga de Lila/Santa Bárbara, parece igualmente ter tido importância no mapa conceptual das comunidades do passado, onde já se identificaram alguns abrigos pintados — número que poderá aumentar com prospeções arqueológicas mais sistemáticas. Há, assim, uma ligação estreita, e cada vez mais insistente, entre a frequência da Montanha e das terras ao seu redor.
Materializando um corredor de ligação entre os territórios aplanados a norte e a sul da Serra, quebra de relevo que visualmente se percebe muito bem a partir das necrópoles megalíticas da Alagoa e Castelo (Murça), ou do Crasto de Palheiros, a Ribeira d’Aila terá sido também dos primeiros espaços a serem marcados de significado pela pintura rupestre. É dominada no seu topo por um conjunto de imponentes abrigos— passíveis de terem tido ocupação antiga — e vigiada no seu troço inferior pelos picos da Garraia, onde o abrigo da Janela do Padre ocupa destaque e domina os territórios para sudeste.
Olhando à volta

A ocupação da Montanha relaciona-se, durante todo este período de cerca de três mil anos (5000–2200/2000 a.C.), com o povoamento pré-histórico da região circundante. Essa relação materializa-se, ora em eixos de circulação e convergência, ora em pontos de agregação ou fixação na paisagem.
Diversos abrigos da Serra, que preservam sedimentos arqueológicos e artefactos (na Garraia, Ribeira d’Aila, Cabreira, Castanheiro, entre outros), juntamente com o recinto pétreo designado “Castelo do Rei de Orelhão”, representam, no seu conjunto, as evidências arqueológicas indesmentíveis dessa relação mútua e continuada da ocupação humana dos diferentes espaços e ecossistemas durante a Pré-história.
As necrópoles megalíticas das zonas mais baixas — mamoas com dólmen, datadas por C14 de todo o 4.º milénio a.C. e do início do milénio seguinte (Alagoa e Castelo 1, em Murça; Fonte Coberta da Chã de Alijó; Arcã e Pedreira, em Mirandela) — representam outras instâncias comunitárias, desta vez ligadas à esfera da morte, pertencentes às mesmas populações que ascendiam à Serra e a geriam.
De igual modo, os povoados conhecidos — alguns na própria Serra, como Mãe d’Água (Regato das Bouças), outros na periferia (Cemitério dos Mouros e Navalho, em Mirandela; Salto, Estirada e Castelo dos Mouros do Cadaval, em Murça; Argeriz, em Valpaços) — têm no seu horizonte próximo a montanha, da qual os separa uma distância linear de entre 6 e 14 km, ou seja, um arco espacial similar ao dos dólmenes.
Esta relação de povoamento e centralidade prolongar-se-ia por outros períodos.
Além dos castros da Serra : Santa Comba e Castelo do Rei de Orelhão, na sua ocupação mais recente, há cerâmicas da Idade do Ferro encontradas na galeria do Buraco da Pala, evidenciando ocupações na Serra e neste abrigo, durante o 1º milénio a.C.
Da época medieval, ainda não estudada, destaca-se o Santuário de Santa Comba dos Vales e a lenda a ele associada, tão importante na compreensão destemonte-ilha de ricos ecossistemas que tanto junta como divide as populações das povoações da periferia pertencentes aos concelhos de Mirandela, Valpaços e Murça, ou mesmo a localidades mais distantes de Alijó, Vila Flor, Carrazeda de Ansiães e Macedo de Cavaleiros.