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A cristianização de 1986 e a primeira intervenção de emergência (1987)

A investigação iniciou-se como uma ação de salvamento no Abrigo Buraco da Pala, após a sua cristianização. O abrigo fora provido de um altar rústico, escadas de acesso e, no lado direito da entrada, de uma escultura em granito de São Bento inserida numa peanha natural da fenda

Esta investigação isolada deu origem, nas décadas seguintes, a diferentes programas de investigação.

Por comunicação do professor Luciano Prada, então vereador da Cultura do Município de Mirandela, ao Serviço Regional de Arqueologia da Zona Norte (SRAZN) do IPPC, em 1986, noticiou-se que, durante a adaptação do abrigo para local de culto, foram encontrados instrumentos (machados) e cerâmicas. Estes achados convenceram o vereador Luciano Prada e o Sr. Agripino Franqueiro, que o local — até então usado como simples curral de cabras — teria ocupações pré-históricas.

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© Carolina Antunes

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Francisco Sande Lemos, diretor do SRAZN, solicitou a Maria de Jesus Sanches, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, uma intervenção de emergência. Tratar-se-ia de uma escavação preventiva e rápida, uma vez que o "abrigo não parecia conter muitos sedimentos". Contudo, os resultados desta intervenção de emergência em 1987, foram surpreendentes e promissores: a potência e qualidade da sequência estratigráfica revelaram um potencial arqueológico que levou ao desenho de um programa de investigação plurianual, abrangendo o Abrigo Buraco da Pala e seu contexto paisagístico: a Serra e região envolvente.

Devido às escavações, a frequência cultual do abrigo teve um interregno para estudo arqueológico por determinação do Bispo de Miranda e Bragança, D. António Rafael, que visitou o local em 1988 e se mostrou impressionado com os tesouros do passado que aquele lugar místico guardava. Assim, o Buraco da Pala não ganhou estatuto de local de culto cristão — a breve utilização como lugar de oração entre 1986 e meados de 1988 não foi suficiente para que o abrigo consagrado a S. Bento ficasse enraizado na fé e devoção popular.

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A investigação arqueológica na Serra começou na sequência da cristianização do abrigo Buraco da Pala, em 1986. No ano seguinte, em 1987, teve início a escavação do abrigo, sob responsabilidade de Maria de Jesus Sanches, o que deu origem a um vasto programa de estudos que, na sequência da identificação, em 1988, dos abrigos com pintura esquemática do Regato das Bouças 2 e 3, se estenderia, nas décadas posteriores, a toda a Serra. Nos anos seguintes foram identificados outros abrigos pintados.

As prospeções e novos registos culminaram na primeira classificação como Sítio de Interesse Público, em 1992 (Regato das Bouças), e na proposta de ampliação das áreas da Serra a salvaguardar, apresentada em 2014.

1987–1990 – Escavações e extensão da investigação à Serra

 

Os trabalhos arqueológicos decorreram entre 1987 e 1990, com financiamento do IPPC/IPPAR, apoio logístico do Município de Mirandela e a participação de equipas da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, juntamente com jovens de várias freguesias locais, especialmente da aldeia de Passos.

Foi nesse período também que, na sua permanência na Serra, Maria Jesus Sanches descobriu os primeiros abrigos com pinturas rupestres no núcleo do Regato das Bouças.

Entre 1989 e 1993, prosseguiram as prospeções e registos dos painéis pintados até então descobertos. Nesses trabalhos participaram diversos estudantes universitários, merecendo destaque Iva Botelho, Antónia Silva, Ermelinda Lima e a arqueóloga Margarida Santos Silva.

Desde essa fase inicial, foram publicados vários trabalhos científicos tendo o Buraco da Pala destaque por ali se terem identificado os primeiros vestígios de espécies cultivadas do noroeste peninsular - trigo, cevada, fava e lentilha.

1988 – Proposta de classificação dos abrigos com pinturas esquemáticas do Regato das Bouças

 

Reconhecendo a particular importância da concentração de abrigos com pinturas rupestres no Regato das Bouças — então em número bem menor do que hoje —, Maria de Jesus Sanches submeteu à Tutela do Património uma proposta de classificação em 12 de dezembro de 1988.A classificação foi aprovada em 1992, como Imóvel de Interesse Público (Decreto n.º 26-A/92 de 1 de junho).

2000–2020 – Estudos continuados e divulgação científica (sem financiamento)

 

 

Sem novos financiamentos para a realização de novos trabalhos de campo, após a década de 1990, a investigação na Serra concentrou-se em trabalhos de divulgação e publicação científica.Entretanto, o estudo do território em torno da Serra (também iniciado em 1988) — nos concelhos de Mirandela, Murça e Valpaços — prosseguiu até 2008, permitindo compreender as relações entre o povoamento das terras baixas (povoados e dólmenes) e a Serra.Entre 2000 e 2017, realizaram-se algumas incursões de campo e prospeções sem apoio institucional e logístico, resultando na descoberta de novos painéis pintados na área do Regato das Bouças, alguns revelados por habitantes locais, em especial Jorge Pinto.Foi neste contexto que se identificaram os primeiros motivos oculados, reforçando a perceção da excecionalidade do património arqueológico da Serra.

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Face ao perigo do seu desaparecimento, procedeu-se em 2013 ao registo multiespectral dos abrigos 11 e 15B do Regato das Bouças, que concentram o maior número de figuras desta tipologia (equipa de registo: Luís Bravo Pereira e Maria de Jesus Sanches).Em 2011, o registo multiespectral parcial no Abrigo 3 do Regato das Bouças (“Casinhas de Nossa Senhora”), realizado por Paulo Lima, Hugo Pires e Luís Bravo Pereira, introduziu métodos inovadores de análise das pinturas. Entre 2014 e 2017, no âmbito do Estudo Histórico e Etnológico do Vale do Tua, Joana Castro Teixeira realizou prospeções pontuais e identificou novos abrigos pintados nas áreas da Ribeira d’Aila e Garraia.

2014 – Proposta de ampliação da área classificada e o compasso de espera

 

Em 2014, já era evidente que o valor patrimonial da Serra se estendia muito além do Regato das Bouças e do Buraco da Pala. Foi então aberto um novo processo de classificação com o objetivo de alargar a área a proteger a outros núcleos entretanto descobertos, bem como ao povoado do Rei de Orelhão.A proposta foi desenhada por Maria de Jesus Sanches, Joana Castro Teixeira e Pedro Rafael Morais, em colaboração com a Direção Regional de Cultura do Norte (DRCN).Perdida em trâmites burocráticos, só em 2019 saiu para consulta pública, e o processo ainda não foi concluído.

2020–2025 – Projeto Plurianual de Arqueologia (PIPA) e Projeto EscapArte

 

Entre 2020 e 2025, decorrem dois projetos quase simultâneos:

 

1.Projeto Plurianual em Arqueologia (PIPA), coordenado por Joana Castro Teixeira — “A arte rupestre da Serra de Passos–Santa Comba no contexto da Península Ibérica. Modos de partilha de grafismos no âmbito da integração social e ideológica das comunidades da Pré-história Recente” (2020) — atualmente na sua fase final, coincidindo com a sua tese de doutoramento.

 

2.Projeto de valorização patrimonial EscarpArte (2021–2023, prolongado até 2025) — “Sentir as Escarpas da Serra de Passos/Santa Comba. Uma viagem de sete mil anos”. Desenvolvido no âmbito do programa Promove – o Futuro do Interior 2020, é financiado pela Fundação BPI/La Caixa e pelo Município de Mirandela. Resulta de uma parceria entre o Município de Mirandela, a Faculdade de Letras da Universidade do Porto, a empresa Octopetala Lda. e o Laboratório Colaborativo Montanhas de Investigação (MORE). O projeto visa criar um percurso visitável na Serra — entre Passos e o Buraco da Pala, passando pelo Abrigo 2 do Regato das Bouças. Abrindo este património ao público, o projeto procura conciliar a divulgação e a fruição com a investigação e a salvaguarda. Embora centrado na criação de um percurso visitável, integra também uma componente sólida de investigação científica.

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2026–2029 – O futuro próximo

 

Um novo projeto de investigação, com uma abordagem holística à Montanha Sagrada, está a ser preparado por uma equipa ligada ao Centro de Investigação Transdisciplinar «Cultura, Espaço e Memória» da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (CITCEM/FLUP), à Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), à empresa Dryas Octopetala e às universidades espanholas de Alcalá de Henares e Vigo (Polo de Ourense).A primeira fase está prevista para decorrer entre 2026 e 2029.

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Ficha Técnica​

Textos:

Maria de Jesus Sanches

Joana Teixeira

António Crespi

Concepção e execução:

Sara Cura

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